terça-feira, 26 de junho de 2012






eu sou a água clara
na boca do cangaceiro
em tudo que é fevereiro.
eu sou o cheiro de mar.

estou no vento poderoso
que vai movendo o veleiro.
sou o próprio contratempo.
eu torno tudo passageiro.

destilo línguas de fogo
qual passagem pro inferno.
queima, queima babilônia!
com mais lenha, eu sou eterno.

eu crio terra fértil
aonde comem os animais.
faço esculturas de barro
retratando os ancestrais.

matei hades e anúbis,
não poupei nem o diabo...
não sofrerei com a morte
pois conheço meu passado.

fui inicio turbulento,
hoje linha de chegada.
semente do universo;
voo e não deixo pegada.

fui explosão criadora,
gigante dos povos nórdicos.
costela fêmea de adão
e o famoso filho pródigo.

olho cego pra frente,
edifico a minha estrada.
tenho nada, sou tudo;
ao ter tudo, não sou nada.

segunda-feira, 18 de junho de 2012









foi a mesma solitude que me levou a  frequentar o meretrício e por uma das moças do lugar, valdenice, passei a nutrir um forte sentimento de confiança que entre as criaturas amedrontadas, faz as vezes de amor.
nos tornamos íntimos pelo corpo e pelo espirito e íamos juntos passear na praia alguns dias da semana.
ela sempre pagava tudo já que faturava em torno de quinze vezes mais por dia no bordel do que eu na loja. naquelas noites eu me obrigava a ser amável quando ia encontra-la. é preciso ser alegre com as mulheres, pelo menos no inicio.
uma noite, sem mais nem menos, ela me ofereceu cinquenta reais. primeiro eu recusei. não me atrevia. pensava no que minha mãe diria numa situação dessas e depois eu refleti que minha mãe, coitada, nunca tinha me oferecido tanto. essa valdenice, cá entre nós, que mulher! que generosa! um festim de desejos! mesmo assim eu voltava a me afligir. gigolô?... pensava.
ah, se eu tivesse a encontrado mais cedo, a valdenice, quando ainda era tempo de pegar uma estrada ao invés de outra... antes de perder meu entusiasmo com aquela filha da puta da tânia ou com aquela bostinha da márcia. a natureza era mais forte. só isso. a vida tinha me testado num gênero eu eu não conseguia mais sair desse gênero. eu tinha ido num rumo de inquietação. eu gostava muito de valdenice, é verdade, mas gostava ainda mais desse meu vício, dessa vontade de fugir de todo lugar a procura de não sei o que.
acabei, de tanta gentileza,  por lhe confessar a mania que me atormentava, de dar o fora de tudo. ela me viu debater durante dias e dias sobre fantasmas e orgulho e não ficou impaciente, não. muito pelo contrario. tentava apenas me ajudar a superar essa inútil e tola angustia. mas isso não adiantava nada, ser boa comigo.
ela era sincera demais para ter muitas coisas a dizer à respeito de uma tristeza. ai de novo fiquei com aquela sensação de que a vida me escondia o que eu queria saber dela. a vida. a verdadeira amante dos verdadeiros homens. então fui perdendo o fervor de beijar valdenice e à vendo cada vez menos.
é no cansaço e na solidão que o divino sai do homem. eu tinha vergonha de não ser rico em sentimentos e tudo o mais e também, de mesmo assim, julgar a humanidade mais baixa do que ela é de fato. e ainda eu tinha essa queda horrorosa pelos fantasmas. talvez não totalmente por culpa minha. a vida forçava a passar tempo demais com os fantasmas. eu não parava de deixar as pessoas.
quando comuniquei minha partida à valdenice, ela me disse: 'você já esta longe, meu amor. você está fazendo exatamente o que tem vontade de fazer, não está? é isso que é importante... é só isso que conta...'
quase que eu quis ficar.
para deixa-la, decerto, precisei de muita loucura e de um tipo frio e abjeto. seja como for, encorporei em minha alma as gentilezas e os sonhos que valdenice me deu naqueles poucos meses em mongaguá.
ela não mora mais na mesma casa. foi tudo que consegui saber.
boa e admirável valdenice.  quero, se acaso me leia de algum lugar que não sei, que bem saiba que não mudei, que ainda a amo e para sempre, do meu jeito, que pode vir aqui quando quiser partilhar  minha comida e meu imprevisível destino. se não for mais tão bela, pois bem, paciência! a gente se arranja!
trago tanta beleza dela em mim, que ainda tenho o suficiente para nós dois e para no minimo trinta anos, o tempo de tudo se acabar.

sábado, 16 de junho de 2012








ultimamente, nas madrugadas de sexta pra sábado, ele tem feito muito isso.
raramente no meio da semana. ele é meio paradão. mas nas noites de sábado, uma luz diferente o ilumina e ele vai se movimentar por ai. gosta de estar por toda a cidade. mesmo duro, está pelas esquinas. para em rodas de samba, nas portas das boates, em postos de gasolina e aonde tenha consumo livre de álcool. assim, sua energia vai além de suas possibilidades e é nas primeiras horas das manhãs de sábado que ele sente uma vontade incontrolável de se movimentar. correr por ai. dessa vez foi parar na rebouças, na altura da henrique schaumann.e foi ali que ele fez mais uma vitima. uma maserati.
maldito poste bêbado!

terça-feira, 12 de junho de 2012










tento ser forte
e conto com a sorte.
o risco de morte
aqui é real.

olho o jornal
e me dá arrepio.
não é só no Rio
que a coisa vai mal.

a cidade
é uma armadilha.

vejo minha filha
em tão tenra idade;
não sabe a maldade
que conduz as crianças
da estação sem luz
à um destino apagado.

seguem fio desencapado
e ninguém fica chocado...
só quando se vê acuado,
ameaçado por um caco
na mão de um pirralho
que não tarda
meter-lhe o talho.

talhado coração
de galinha à cabidela
cidadão.
terá fim essa situação?

quarta-feira, 30 de maio de 2012








em algum lugar
do meu sonho
uma fera
me espera.
me ponho
a abrir picada
na mata fechada
sabendo não dar
em nada
a minha fuga
desse encontro.
ela vai me pegar
e pronto!
sinto o halito
dela no ar,
seu cheiro almíscar...
não dá
pra escapar.
tenso, penso
em enfrentar
a criatura.
lutar essa dura lida;
mas ela é tão linda...
eu vou é me entregar.
logo me vejo
sobejo de desejo
em uma casa
abandonada
e subindo
uma escada
que me leva
a teia dela.
serei a ceia
dessa bela fera.
mas ao vê-la
de verdade
me arde
o desespero.
seu pêlo é curto
e vermelho,
iguais às unhas
rubras, curvas
e afiadas.
os olhos,
dois pedaços
de carvão,
que nem de
tubarão
numa cara 
meio ofídica.
um corpo esguio
que me enche
de arrepio.
me deixa vazio...
sem pensar direito,
logo me jogo
à fera
para que ela
rasgue meu peito,
abra minha cabeça
e desfaleça
os meus sentidos
no ato da apropriação.
acordo em rápidos gemidos
e de tesão.





sábado, 26 de maio de 2012





FOGO, FERRO E MAR





foi em 1915 que isso se sucedeu.
a primeira grande guerra acontecia e tudo era nebuloso e incerto na inglaterra.
nesse cenário encontra-se thon, que andava muito apreensivo com aqueles tempos. por essa época, ele era um popular líder sindical e seus discursos moviam a massa. seu verbo fluente falava das amarguras do povo e de suas aspirações. a guerra não era uma delas. logo o governo britânico viu em thon uma ameaça e se valendo de sua descendência alemã, meteu-o na cadeia. não demorou muito para que, além dos muros, a liberdade do líder fosse tramada. thon seria resgatado da prisão e embarcaria em um vapor que seguia para a américa. documentos falsos foram providenciados para que ele fosse incorporado à equipe de foguistas do navio. até então, nunca saíra da inglaterra e a emoção da aventura o excitava. mas ao chegar na casa de máquinas, thon viu que a sua liberdade sairia caro.  acostumado aos palanques e escritórios, thon se viu no inferno ao ter que investir com a pá cheia de carvão contra a boca do forno incandescente que fazia as hélices funcionarem. ele duvidou de suas forças para tão tenebrosa tarefa. pensou que morreria naquela atmosfera escaldante, mas pouco a pouco foi absorvido pela indiferença do espaço-tempo, sensação tão conhecida pelos exilados e infelizes. fazia seu trabalho de forma mecânica e solitária em meio ao barulho das maquinas e das labaredas que lhe queimavam os pêlos do braço e as pestanas. a policia na inglaterra também trabalhava e em investigação e investigação, soube do paradeiro certeiro de thon e telegrafou para o navio dando a identidade verdadeira do pseudo-foguista. no quarto dia da partida, toda a tripulação já sabia do fugitivo.
ele era vigiado e, por sinistra ironia, sabendo que thon faria qualquer coisa pela liberdade, era posto nas caldeiras mais quentes e que davam mais trabalho. seguia resignado. assim foi por muitos dias, até que o navio entrou no rio hudson. thon olhava os arranha-ceús de nova iorque já pensando na liberdade quando um oficial do navio o chamou: 'sr. thon...' estremeceu. a sorte o abandonou. lhe chamavam pelo nome.
'como vê, sei quem você é. desde o começo eu sabia. não mandei prende-lo antes para não desfalcar a equipe dos foguistas. mas agora, em nova iorque, o senhor será substituído. teje preso!'
thon abaixou a cabeça arrasado. 'levem esse homem.' finalizou o oficial.
ele foi posto então em ferros e jogado em uma cela infestada de ratos. desembarcou de volta em liverpool meio morto e meio louco. por pura crueldade deixaram-no trabalhar até nova iorque, e pelo mesmo motivo o puseram, na volta, acorrentado no porão de um navio da onde não podia fugir.

sexta-feira, 25 de maio de 2012








grande hipócrita me elejo
dentro dessa sociedade
então vou falar a vontade
de certas cenas que vejo

me vejo sempre ganhando
grana em cima da miséria
eu juro que a causa é séria
e por trás vou tripudiando

digo que é muito bizarro
esse sistema de saúde
mas me contento amiúde
com um maço um cigarro

eu fiz um projeto pro VAI
para ir contra a violência
mas agrido sem clemência
meu filho, meu irmão e meu pai

sou um artista ativista
lutando pelos direitos
mas tudo fica perfeito
se eu saio na revista

as leis e suas sevícias
digo não aguentar mais
mas dou cinquenta reais
nos acertos com policia

afirmo de forma arrogante
que o trânsito é um horror
mas quando estou no metrô
só vou na escada rolante

digo que vivo várias fita
na zona sul e na asa norte
mas prefiro até a morte
ao por o pé em palafita

'a periferia é uma beleza!'
afirmo por onde eu ando
mas quando é fim de ano
vou tirar onda em veneza

e em quantos interesses
ponho o nome de amor?
relações mais sem pudor
que troco todos os meses

aceito qualquer emprego
que me dê uma assistência
e supra a minha carência
das coisas eu tenho apego


a culpa de toda a desgraça
costumo jogar no politico
os quais sempre critico
sob efeito da cachaça


as minhas palavras a esmo
são cheias de demagogia
e não demora, algum dia
vomitarei em mim mesmo