quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012




VIÚVO DE ISA


 


quando conheci o isaías eu tinha doze anos. brincava eu de barrar o esgoto que passava fininho na porta lá de casa com pedras. ele parou de escort XR3 bem onde eu tava e disse assim: 'ô menino, vamu ali comigo tomar um lanche?'. eu menino fiquei olhando acocorado pensando em pão com mortadela. nem lembrei de fabrício meu irmão dizendo quem isaías era. entrei no carro mesmo de short, havaiana e sem camisa.
eu não tava ali brincando de pedra no esgoto a toa, não. eu queria ir pra rua, mas os meninos ficavam ali me xingando e passando a mão na minha bunda. me chutando. e nessa mesma manhã eu tive que brigar com um deles lá no morrão. e como sempre, eu chorei. que de raiva! eles riram. e eu tava ali meio que preso em casa, cheio de pedra na mão... ai veio isaías me levando lá pro socorro pra tomar laranjada. ele já usava aqueles óculos engraçados nessa época e como ele me fez rir imitando os menudos. nesse dia mesmo ainda teve misto-quente, beijo e boquete. dai pra frente eu via isaías todo dia. era na escola ou na rua. eu entrava naquele escort como se num conto de fada. que tava mais pra foda, né? isaía era muito foda! com ele me libertei para o que sou. ele me dava confiança e até as notas da escola melhoraram. os moleques já não me perseguiam mais. mas em casa é que desarranjou... não demorou pra fabrício meu irmão me ver de voltinha na piraporinha com isaías. vixi! me bateu, xingou e disse o que mãe pensaria em me ver andando com esse tipo de gente. tadinho de meu irmão fabrício... acho que ele não lembrava que mãe era o tipo de gente que, abandonada, abandonou eu e ele pra não ver a gente passando fome dentro dos madeirites...
essa surra foi numa quinta, no domingo eu já tava num barraco lá na dança cigana que o isaías alugou pra mim. e foi isso. dai vivemos ali no vaz de lima esses últimos oito anos em um casamento feliz. eu sabia pelo alto o que o isaías fazia por ai, mas ele não merecia morrer assim. nem em bicho se dá esse monte de tiro no cú. fazer o que? seguir a vida. trabalhar pra acabar a faculdade...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012



EMILIANO SOFRENDO



 





em sua adolescência, emiliano participou de uma experiencia do governo.
junto com outros mancebos, internou-se em uma instituição não localizada e lá ficou por uns quatro anos, quando deveria ficar dez. o que aconteceu de fato naquele espaço tempo é uma incógnita que nunca saberemos, pois o que vamos tratar aqui é que dezoito anos depois, graças ao advento do facebook, alguns daqueles não mais jovens  resolveram se encontrar. podia ser em um domingo. podia ser no ibirapuera...  emiliano ficou enojado e repudiou a possibilidade de dar forma aquelas sombras que lhe vinham quando se lembrava daquela época. fez que não viu as postagens do convite, até ver adriana nas conversações.
emiliano molhou a sola dos pés em sensações. pensava nunca mais ver aquele cabelo sedoso, a pele mais clara que já tocara... naquele tempo mesmo ele já não lidava bem com elas. foi com fusão que emiliano se meteu com adriana dentro do armario da area de serviço em uma tarde de sabado. o flerte entrou em erupção ali entre tanques e sabão. o encanto acabou com o flagra do monitor. relação daquela natureza era cabível de expulsão do projeto. ele quase não aguentou o olhar da irmã, que era mãe e pai também, na manhã em que retornou de mala e cuia. ela foi quem arranjará aquela boquinha para ele ganhar um dinheiro enquanto aprendia coisas. e agora? emiliano não parou. logo arranjou emprego em uma livraria que o livraria do mal estar em casa ouvindo as lamurias da irmã. foi indo para o trabalho que um dia conheceu clara, com quem namorou, casou e não teve filhos. nem quiseram saber porque. adotaram edgar, criança pequena e frágil que morreu em dia de festa. não demorou muito para que clara também se fosse, morrer em vida. emiliano nunca mais a viu e nem saiu de casa em paz. tudo o acusava. tudo o fazia lembrar dos desacertos da sua vida. e mais essa agora: adriana ali dizendo que ia no encontro. um dia, ao abrir o facebook, viu a mensagem vermelha de adriana. ela dizia estar feliz em acha-lo na rede social e que ela só iria no encontro dos antigos alunos se ele também confirmasse presença. emiliano não confirmou, não respondeu e sofreu até a data marcada do encontro. vestiu uma roupa sóbria e se meteu no ônibus que o levaria até o parque. sabia de tudo: o horário, o lugar, quem iria... foi e ficou de longe vendo a movimentação. e eles foram chegando. umas doze pessoas. muito menos das que disseram que iam. reconheceu silvana, geórgia e teresa. ninguém mais. nem ele mesmo, que se perguntava o que fazia ali assistindo aqueles sorrisos de longe. mas ele sabia. ele sabia que tinha ido ali pra ver se adriana iria ao piquenique independente da presença dele. se o que ela dizia era verdade e se ele teria alguma chance de ser feliz, caso adriana entrasse na vida dele novamente. mas ela não apareceu no piquenique e ele ali também não foi. ficou em um banco afastado, observando as pessoas tirando fotos abraçadas, vinho, pães e frutas sendo consumidos em meio a gargalhadas. o que poderia ele fazer ali? convivera pouco com aquelas pessoas e não tinha o menor interesse em saber o que eram elas hoje. e se perguntassem da vida dele? nunca que ele teria coragem de dizer que pôs fogo no filho que nem dele era ao tentar ascender a churrasqueira naquele maldito domingo. a explosão do álcool, o cheiro da carne, os gritos... tudo ainda habitava a vida de emiliano. nunca superaria. se alguém perguntasse, nunca que conseguiria dizer simplesmente: 'não tive filhos.' viu as pessoas se despedindo e se irem para o que ele imaginava ser uma vida melhor do que a dele.
chegando em casa, emiliano excluiu seu perfil do facebook.

sábado, 4 de fevereiro de 2012









são esses difíceis dias
para se fazer poesias.
ai se não fosse maria
(a quem chamo luciana)
nada saia essa semana.

fico vendo pinheirinho
caindo à cassetadas
e sinto a alma apertada;
parece que sonho sozinho.

será eu tão minoria
que a vontade que me guia
é um crime condenado?

sigo nessa via sacra
aonde a policia massacra
o povo em nome do estado.

até quando mastigar
esse suflê de sofrer?
a vida não tem ouvido.
o mundo é mudo, surdo
e absurdo.
eu quero parar com meus ais,
beijar mais e fazer haicais.
mas a vida vem cobrando uma lida
bem maior que a permitida.

permeio-me de esperanças.
sentimento que só tem cabimento
aos tristes...

dedo em riste.
caneta quente.
faço essas rimas pobres
solidário à minha gente.

domingo, 29 de janeiro de 2012







TÁ LIMPO!


File:Santiagopaulos-androginia.jpg


na fila do mercado, ela me vira e diz assim: 'o que eu não gosto mesmo é de me sentir uma mulherzinha.'e eu, super atencioso, lasquei: ' e quais são as situações que te fazem sentir-se uma mulherzinha?' ela: 'sei lá... lavar panela com resto de comida, lavar banheiro, lavar cueca, passar pano e essas coisas assim...' pensei com meus botões: 'ai, meu pai. sou a porra de uma mulherzinha!' o choque foi ligeiro e me senti muito a vontade pra dizer à ela enquanto a caixa já passava o creme de leite: 'e quando eu me meto pelas suas pernas lá na cama e aperto seu peito e abro as banda da sua bunda e dou linguadas lá dentro? você gosta de se sentir mulherzinha?'
ela fechou a cara e me socou o ombro.a caixa só recebeu. fez que não ouviu.







terça-feira, 24 de janeiro de 2012




REPÚDIO 








eaê seu geraldo?
são esses cães fardados
que serão designados
a trazer ordem e segurança
para esse seu estado?

e esse seu estado
mental?
como pode achar normal
usar força policial
(esses seus cães)
contra mães que tentam
defender seus filhos
dos tiros de borracha?
o senhor acha normal?
acha?

diz pra mim, seu geraldo:
como pode dormir em paz
vendo cenas tão brutais
que esses seus animais
armaram no pinheirinho?

será sempre esse o caminho
para esse tipo de questão?
ferro, fogo e canhão
pra cima do cidadão.
é assim que o senhor resolve
o problema da habitação?
de cassetete na mão?

e o que dizer da justiça
omissa?
e o que dizer da força policial
brutal?
o que dizer da imprensa
que dispensa o fato
e vende gato
por lebre?

e a gente, gente?
até quando tão otários
deixando que elejam
esses salafrários
sanguinários
que caça o operário
em seu casebre?

vamos deixar o estado
(mental do seu geraldo)
nos erradicar?
eles tem a intenção
de fazer atrofiar
a nossa percepção,
o nosso senso critico,
e a nossa educação
para que esses sínicos
(raça ruim de político)
vençam sempre a eleição.

eles nem atura a nossa cultura!
veem o povo em dois instantes:
ser votante e meliante.


fico vendo nas tv
as cenas que o PSDB
arma pra nos foder:
é tarifa é imposto
é todo tipo de desgosto 
é enchente é indigente
e ainda tem o PT.

vamos nos humanizar...
por o povo no poder!
e não esses vampiros 
que nos recebem à tiros
quando a gente precisa.

e como a gente precisa...
de não se iludir com pesquisa
de saber do chão que pisa
de fazer melhor a escolha
de estourar a velha bolha
de abrir bem mais o olho
de por a barba de molho
e de não sermos tão baldo.

se não pelo amor
que pela dor.
entendeu bem, seu geraldo?





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012



CEMITÉRIO DE ILUSÃO







quase em frente da minha casa
eu criei um cemitério.
é sério.
ali tem um muro e um portão
onde atrás tudo é baldio.
uma casa que explodiu.

por de trás de um azulejo
que vejo onde era a cozinha
dorme um desejo em mudez
que tive por uma loirinha
que foi minha
só uma vez.

enterrada no alicerce
onde antes era o quarto,
permanece uma luxuria
folgada em farto caixão.
foi forte aquela paixão
e virou fúria rompedeira.
ela era costureira...

naquele canto bizarro
de cano, pia e privada,
em tudo está em enterrada,
mais uma das minhas mancadas.
ali ficou uma ai
que loucamente eu quis.
e achando eu ser feliz,
fiz verso, festa e namorada.
só que essa era casada.

ali onde era a sala
assola uma sombra vaga
que ainda não foi enterrada.
pairando grave no ar
ela busca escapar
pra outro corpo tomar.
começo onde tudo se acaba;
eu falo da mulher-diaba.

são alguns poucos
que eu distingo.
é tanto grito louco,
tanto xingo e barulho
que sai de baixo do entulho
e das marias sem vergonha.

é ali o meu cemitério particular.
o deixo bem perto do meu lar
pra poder olhar da janela
o muro e o portão
d´onde atras deles jaz
a minha morta ilusão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

ENQUADRO










tava eu na madrugada
curtindo a minha loucura.
quando virei a quebrada
dei de cara com a viatura.
estavam em três guardas
e foi tenso aquele instante...
a ordem então foi gritada:
'mão na cabeça, meliante!
e levanta logo a camisa (?)
se tu tá com algum flagrante,
nos poupe trabalho e avisa.'
felei num tom penetrante:
'tenho, sim, uns bang em cima:
tenho papel, caneta e rima
e uma mente fumegante.'

o guarda ficou bem irritado
e disse assim: 'cê tá todo pã.
com esse olho avermelhado
e dando uma de galã?
mostrou que estava armado
e quis pra mim se crescer.
e eu, sem ficar abalado,
me pus assim a dizer:
'sou tipo que não amarela
e não tenho porque tremer.
estou vindo da casa dela
cheio dos proceder.
minha droga é a paz.
a arma, meus ancestrais
e tenho mais o que fazer...

os macaco se emputeceram
e falaram que eu falo demais.
deixei eles de sombreiro
com mais uma ideia tenaz:
'eu sou é poeta fuleiro
na madrugada virado.
tava eu e uns parceiro
fazendo um improvisado.
façam logo seu trabalho
que eu tô um tanto cansado.
não me causem atrapalho
que eu sou bem informado.
eis aqui minha identidade,
sem arma, droga ou maldade...'
só ai eu fui liberado.